| | 1922 Utilizadores on-line |    

Login [Entrar]

 
   
 
 
Histórias de Caça

Início

Anterior

Próximo

Fim


A lua, rainha da noite, começou a surgir muito lentamente e a iluminar toda a parte da Contenda
Uma Espera aos Javalis em Terras do Convento
 

     

Autor: José Manuel Almeida

21-10-2007

 

   
Quero dedicar esta história a todos os familiares e amigos com quem tive a sorte, o prazer e o privilégio de caçar durante anos, e que partiram mais cedo da nossa companhia.

Estávamos na Primavera de 1989.

Ao contrário do habitual para a região de Santo Aleixo da Restauração, o Inverno tinha sido chuvoso, dando origem a que em finais Março o campo apresentasse uma exuberante e diversificada vegetação acompanhada de cheiros deliciosos emanados do rosmaninho, estevas, papoilas e poejos.

Anos de muita chuva nos meses certos é ano garantido de cogumelos, esse manjar tão característico das populações da margem esquerda do Guadiana.

Manhã cedo a sempre diligente carrinha Ford Escort arrancou com 4 "vinte cinco", cestas e palhetas quanto baste, em direcção às soalheiras encostas da Coutada dos Frades, em frente à Contenda, a poucos metros da foz o­nde o leito da ribeira de Paejoanes beija e se acasala com Murtigão.

Depois de algum tempo de busca lá fomos encontrando o belo manjar, nada de extraordinário mas que nos fez subir o ego e nos encorajou a continuar a busca.

No entanto, o que nos chamou mais à atenção foi o rasto dos javalis e as suas fezes frescas da noite anterior, indicador que os bichos não andariam longe e que estavam crençudos naquela zona.

A Coutada dos Frades ainda não era reserva de caça, pelo que ficou logo decidido que nessa noite iríamos fazer uma "espera". Meu pai de livre vontade e Zé Miguel depois de uma longa negociação, ficaram na aldeia, pelo que eu e meu mano Mário nos fizemos à velha e cambaleante estrada 258 que liga Santo Aleixo a Barrancos.

Ainda o sol não se tinha encoberto no horizonte e já nos encontrávamos colocados no nosso posto. Eu escolhi uma vereda bastante seguida, virada a norte e que pela pouca experiência que tinha, me pareceu um bom local. O meu companheiro ficou colocado junto ao Murtigão.

Para um amante da natureza, um pôr-do-sol num local que amamos é inesquecível. Na encosta oposta ao local o­nde me encontrava tudo me era familiar... os montes... os barrancos... as azinheiras…

A pouco e pouco começou a escurecer. Côres belas e diferentes foram surgindo no horizonte, e ali estava eu, sentado num banco de cabedal, bem agasalhado, com a minha velhinha Pietro Beretta sobre os joelhos, parado no tempo e gozando a tranquilidade da paisagem, animada pela cantiga ritmada de um rouxinol, pelo bater das asas de um pombo bravo, ou pelo colorido sonoro tão característico de um merlo à procura do seu dormitório.

A lua, rainha da noite, começou a surgir muito lentamente e a iluminar toda a parte da Contenda até o­nde a minha vista alcançava. Começaram então a chegar à minha mente episódios e vivências que me aconteceram por aquelas paragens.

Toda a minha infância e parte da adolescência foram passadas na Contenda. 

   
 «O caçador, a arma e a presa... Mais ninguém! Uma sensação indescritível invade todo o meu ser.» 
   


Por razões profissionais do meu pai, toda a minha família materna viveu na Contenda cerca de 20 anos, numa habitação que ainda hoje é conhecida pelo "monte do 25".

Mas tal como nós, também famílias inteiras como os Alvarinhos, os Adames e os Granitos viviam e trabalhavam a tempo inteiro nesta propriedade, que sendo pertença da Câmara Municipal de Moura, em meados da década de 60 passou a ser explorada pelos então designados Serviços Florestais.

Os dias passavam lentamente, sem pressas ou correrias, comiamos o que a terra dava, existindo entre todos nós uma amizade, solidariedade e entreajuda que só quem vive isolado da sociedade sabe e pode entender.

Sem dar por isso, duas lágrimas teimosas escorreram-me pela cara fazendo-me voltar à realidade.

Tinha começado a arrefecer, a luz do mirante o­nde vivia o guarda-florestal tinha acabado de apagar-se. As rãs em Murtigão continuavam com o seu cantar desgarrado e repetitivo.

Coitado do meu mano com aquela "grafenola" a matraquear-lhe os ouvidos e a não o deixarem gozar toda aquela sensação de paz e sossego que só as "esperas" nos podem proporcionar.

E novamente me chegam à memória cenas passadas há muitos anos atrás.

A adrenalina do primeiro javali, o ferrar da primeira achigã, os odores da esteva seca, o sabor dos melbotões da horta do monte e a "invasão da Contenda" pelos caçadores no período quente do pós 25 de Abril de 1974, que não contentes com as lebres, coelhos e perdizes ainda levaram pombos mansos, galinhas e perús dos montes das redondezas.

A polémica da caça!

Por mais Decretos e Portarias publicados, os problemas de o­ntem são os problemas de hoje, porque na grande narrativa histórica do Ocidente todos os regimes políticos, sejam eles monárquicos, democráticos ou ditatoriais, são ciclícos. Isto é, todo o sistema politíco eleito ou não pelas massas, nasce, cresce, desenvolve-se e atinge o seu apogeu. Inevitavelmente entrará em decadência e no seu lugar surgirá um outro sistema, e assim sucessivamente ao longo dos séculos.

Pegando na nossa história e ao analisarmos a evolução cinegética em Portugal desde a fundação da nacionalidade até aos nossos dias, encontramos convulções sociais que se repetem com uma certa frequência.

Em períodos de paz existe estabilidade política, o clero e principalmente a nobreza estão fortes, então aumentam-se as coutadas e existe um maior controlo sobre a caça. Em tempo de guerra e de instabilidade governamental, como depois do 25 de Abril de 1974, eram concedidos alguns beneficíos cinegéticos ao povo, nomeadamente algumas espécies de caça menor.

Assim, desde sempre duas grandes classes da sociedade portuguesa se mantiveram em confronto; os donos das terras que reservam a caça para si e para os seus, e aqueles que as não possuindo, nelas querem caçarem.

O problema central é este. De o­ntem e de hoje.

Mais uma vez volto a interromper os meus pensamentos. Eram cerca das 11 horas da noite.

A lua apresenta agora todo o seu esplendor. As ramas das azinheiras e das estevas balouçavam docemente empurradas por uma brisa suave mas fria que a pouco e pouco me vai enrregelando a cara.

O vento estava a meu favor.

De repente, à minha direita um pau seco estala no meio do mato.

O meu coração começou a bater mais depressa e todos os sentidos ficam alerta.

Minutos depois, que me pareceram uma eternidade, vejo um vulto negro e robusto que caminha silenciosamente pela vereda, na minha direcção.

O meu coração começou a bater mais depressa.

De repente o animal parou, e ai se manteve estático e vigilante, a tirar ventos, por longo tempo.

Eu via-o. Ele não me sentia.

A adrenalina tinha passado. Estava calmo.

De repente, sem de nada desconfiar, arrancou decidido.

A beleza da caça grossa está nestes momentos inesquecíveis que ficam gravados na nossa memória até que o Redentor nos chame para perto de si.

O caçador, a arma e a presa... Mais ninguém!

Uma sensação indescritível invade todo o meu ser. Em fracções de segundos sentimentos contraditórios passam-me pela cabeça. Ali, à minha frente estava o javali com que eu sempre sonhara e no entanto uma força indescritível matinha a arma cruzada sobre os meus joelhos.

Contrariando todos aqueles que criticam e condenam toda a actividade cinegética, os caçadores amam as suas presas. Não sentem pena delas, mas respeitam-nas.

Meto a espingarda à cara. O tiro partiu…
 

 
Imprimir   Imprimir
     
     
     
     
 
 
 
Votos (56)    
 
     

Comentário(s) (3)   Comentário(s) (3)    
    Bela narrativa, plena de    
    MARAVILHA    
    Gostei    
 
Informação Relacionada

Legitimidade de se Caçar Há algum tempo, alguém com o dever de informar e de respeitar os leitores do jornal onde escreve, não pensou duas vezes em la ...

   

Encontro Cinegético em Moura A Comoiprel - Cooperativa Mourense de Interesse Público e Responsabilid ...

   

Câmara de Moura pretende criar a primeira Escola Nacional de Caça Amanhã vai ser assinado em Moura o ...

   

Cães Inesquecíveis O cão, além da beleza das suas formas, da vivacidade, da força e da agilidade, po ...

   

Herdade da Contenda apontada como exemplo de ordenamento A Herdade da Contenda, no Concelho alentejano de Moura, foi hoje apontada como «um bom exempl ...

   

Montaria ao veado lança polémica Um praticamente de downhill terá sido alegadamente agredido por um ...

   
 
     
  Voltar

 
 

| Ficha Técnica | Aviso Legal | Política de Privacidade |

 

(TES:2s) © 2004 - 2020 online desde 15-5-2004