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A Febre da Carraça: Riscos para o Caçador e os seus Cães
 

     

Autor: Carla Azevedo

10-02-2004 12:00:00

 

   
As carraças, também vulgarmente denominadas carrapatos, são parasitas externos que se alimentam exclusivamente do sangue (hematófagos) de uma grande variedade de hospedeiros: cães, gatos, roedores, aves, suínos, equinos, ruminantes, etc.

Existem no nosso país cerca de uma dezena de espécies de carraças, de um total de cerca de 800 espécies, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. As carraças dividem-se por duas grandes famílias: as carraças “duras” com cerca de 650 espécies (ixodídeos) e  as carraças “moles” com apenas 150 espécies (argasídeos). As carraças não são insectos e diferenciam-se pela presença de quatro pares de patas nos adultos e ausência de segmentação do corpo.

Em geral são as carraças adultas que chamam mais a atenção pelo seu tamanho; sobretudo as fêmeas que ingurgitadas com sangue aumentam várias vezes de volume.

As carraças passam cerca de 90 % da sua vida fora do hospedeiro e encontram-se mais activas na primavera e verão e em zonas rurais, factores que devem ser tidos em conta em qualquer programa de controlo de carraças. O crescente aumento do número de hospedeiros (nomeadamente cães e gatos abandonados) e um clima cada vez mais com características tropicais resultante do aquecimento global, alertam-nos para uma proliferação destes parasitas e o consequente perigo em termos de saúde pública.

Durante o seu ciclo de vida, este ectoparasita, assume quatro formas evolutivas: ovo, larva, ninfa e a carraça adulta.

A maioria das espécies necessita de três hospedeiros diferentes, um para cada uma das formas: larva, ninfa e adulto, contudo, algumas espécies alimentam-se de apenas um ou dois hospedeiros.

Uma fêmea grávida deposita no chão cerca de 2000 a 4000 ovos, podendo atingir um número superior a 12000 (!). Cerca de um mês depois nascem as larvas, sobem a vegetação e aguardam até que um hospedeiro conveniente passe ao qual se fixam. Após alguns dias, já totalmente ingurgitadas, caem no chão, procuram abrigo e transformam-se em ninfas, que por sua vez procuram a sua “refeição”, ingurgitam, destacam-se e transformam-se em carraças adultas. Nessa altura as fêmeas adultas trepam a vegetação, aguardam a passagem de um “cliente” de eleição, permanecendo sempre no mesmo uma a quatro semanas até que se destacam, caem no chão e procuram abrigo em locais com alguma humidade, preferencialmente em zonas de vegetação de baixa e média altura. É neste comportamento que reside em parte a explicação para o facto de animais em pastoreio, cães após um dia no campo ou em zonas cinegéticas serem as “refeições”sanguíneas predilectas para estes parasitas.


O perigo para a saúde pública:

A carraça, ao morder o hospedeiro, pode transmitir uma série de agentes causadores de doenças (vírus, bactérias, protozoários, riquetsias, etc.) sendo portanto excelentes vectores de doenças quer para o animal quer para o ser humano. A “febre da carraça” resulta portanto de uma infecção por um agente patogénico transmitido pela carraça aquando de uma picada num ser humano.

A febre escaro-nodular (vulgo febre da carraça), ultimamente bastante divulgada pelos meios de comunicação depois ter sido diagnosticada como a responsável pelas mortes em Ponte de Lima, é uma doença endémica em Portugal, cujo agente etiológico é a Rickettsia conorii transmitida pela carraça castanha do cão (Rhipicephalus sanguineus), não se transmitindo portanto de pessoa para pessoa. De acordo com o Instituto Ricardo Jorge, apesar de a maioria dos casos apresentar uma evolução benigna, nos últimos anos verificou-se em alguns distritos (nomeadamente Beja e Bragança) um aumento do número de casos graves e do número de mortes associadas a esta patologia.

A febre escaro-nodular apresenta um conjunto de sintomas típicos começando por uma lesão primária resultante da picada da carraça seguida, ao fim de 3 a 7 dias, de febre, dores de cabeça, musculares e articulares, gânglios linfáticos aumentados e lesões cutâneas. Os agricultores, caçadores e guardas florestais encontram-se entre os grupos de risco, devendo portanto estar de sobreaviso em relação ao problema. No caso de ser mordido por uma carraça deve imediatamente contactar o seu médico de família.

O perigo para o seu animal

Nos cães o dano causado pelas picadas da carraça pode ser directo:

  • Quadro de paralisia ascendente provocado por certas neurotoxinas existentes na saliva de algumas espécies. A morte pode ocorrer por paralisia respiratória se a carraças não for removida. A remoção da carraça sem deixar vestígios da sua “boca” resulta normalmente numa evolução clínica favorável ao fim de 24 horas e recuperação ao fim de 48 horas.
  • Feridas resultantes da picada, susceptíveis a infecções secundárias bacterianas e infestações por insectos hematófagos e suas larvas.
  • Anemias resultantes da subtracção de sangue.

ou indirecto, através da transmissão de vírus, riquetsias, bactérias e protozoários responsáveis por algumas patologias graves, das quais se destacam a Erliquiose e Babesiose, duas patologias distintas provocadas por uma riquetsia (Ehrlichia spp) e um protozoário (Babesia spp), respectivamente; apelidadas vulgarmente de “febre da carraça”. São patologias com as quais os caçadores estão infelizmente bastante familiarizados, apresentando elevada incidência em cães de caça.

Estas patologias podem ter um curso subclínico (sem sintomatologia) ou apresentar um quadro clínico caracterizado por um ou mais destes sinais clínicos: febre, letargia, depressão, perda de peso, equimoses, epistaxis (hemorragia pelas narinas), urina com sangue (cor de vinho do porto), cegueira aguda, sinais neurológicos, claudicação, dor na marcha, poliartrite, gânglios linfáticos aumentados, choque e mesmo morte se não forem atempadamente tratados. Em caso de dúvida, não hesite em consultar o seu médico veterinário.

A melhor arma: a prevenção

A prevenção, é de facto a melhor arma que o dono do animal possui no controlo das carraças e doenças por elas veiculadas.

Existem inúmeros produtos ectoparasiticidas sendo discutível, contudo, a sua eficácia. Para uma prevenção eficaz dever-se-ão usar compostos à base de fipronil ou permetrinas (com duas apresentações distintas: spray ou “spot-on” - pipetas que são aplicadas no dorso do animal) ou à base de amitraz sob a forma de coleira (apresenta alguma toxicidade para o animal e para o ser humano, principalmente idosos, crianças e doentes). Estes produtos, em geral, têm uma eficácia de 4 semanas. São de todo desaconselhados os banhos com champôs insecticidas ou uso de pós insecticidas pois para além de terem uma duração de acção reduzida, podem provocar dermatites e intoxicação do animal.

Existe no mercado uma vacina para a Babesiose, com eficácia considerável em zonas endémicas.

 

 
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