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Relatos de Montaria

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«...em ambiente simpático e de grande confraternização...»
Para os lados da Herdade do Campo Frio uma Montaria animada
 

     

Autor: João Fonseca

Autor Fotos: João Fonseca

20-11-2008 9:42:00

 

A mancha
   
A organização e o Sr. Director da Montaria
   
O meu almocinho...
   
O quadro final de caça
   
Os argumentos do artista principal
   
Ainda mal refeito do barrete do dia anterior, mas isso são outras histórias, lá me levantei às 4:30 da manhã, a custo, mas com determinação, uma vez que a Herdade de Campo Frio fica lá para os lados de Salvador, muito junto a Penamacor.

Sensivelmente 3 horas e meia é a duração da viagem e a hora prevista para a concentração foi as 8 e meia, tempo que daria suficientemente para ir nas calmas. A1 até ao desvio da A23 e desde logo a partir do vale de Santarém o nevoeiro, que em alguns sítios era muito serrado, acompanhou-nos até à Herdade do Campo Frio. É obra, quase metade do país envolto em nevoeiro, tal qual o de D. Sebastião…

Fizemos a paragem do costume para o segundo pequeno-almoço na área de serviço de Abrantes e lá prossegui numa viagem sem sobressaltos. À chegada, a afabilidade do costume, o Sr. Nuno Sousa, um dos gestores da herdade, recebeu-nos calorosamente, inteirando-se de como tinha decorrido a viagem e se estava tudo bem, atitude que é sempre de agrado registar.

A organização estava um pouco apreensiva pelo nevoeiro que teimava em não levantar mas também esperançada que tal acontecesse.

Quando entrámos no pavilhão de caça, local que serve de apoio a toda a logística inerente à montaria fiquei logo agradado uma vez que pela primeira vez esta época nos era apresentada claramente uma carta com a mancha, os postos, as matilhas a entrada das mesmas na mancha e a forma como se iriam movimentar, um bálsamo para os olhos.

Fui fazer a inscrição na montaria, numa sala contígua, mostrando os documentos exigidos e pagando a quantia estipulada.

Esperava-nos um pequeno-almoço à séria: pão quentinho de forno de lenha, café, leite e chocolate, sumo, presunto, fiambre, queijos vários, doces caseiros e compotas, bolos variados caseiros, requeijão, marmelada, e tudo do melhor sempre em quantidade uma vez que estavam sempre a repor os pratos que iam vazando. Acho que encheu as medidas mesmo aos mais exigentes.

Após este lauto repasto a organização chamou todos os presentes para apresentar a montaria, bem como o Director da mesma o Sr. João Brito Monteiro, antigo membro do Clube dos Monteiros do Norte.

Nessa pequena introdução foram desde logo focados aspectos de segurança e alertados de que poderia haver veados na mancha. Como ainda não é uma situação muito consistente na herdade não gostariam que os monteiros disparassem aos veados, mas se alguém tivesse a tiro o veado da sua vida, poderia abater pagando a quantia de 500€.

Penso que foi uma atitude dissuasora de atirar, mas deixaria à consciência de cada um, e também ao bolso, a possibilidade de o fazer, se assim o entendesse. Seguidamente o Director de Montaria apelou a uma boa jornada de caça e frisou uma situação que ouvi pela primeira vez: a haver alguma situação dúbia entre caçadores e peça de caça era no terreno, e não no final que se resolveria.

Assim a forma de procedimento seria, telefonar para alguém da organização, eles se encarregariam de o ir buscar e levá-lo ao local para resolver a situação. No final não foi necessário, mas gostei da atitude e forma de resolver uma questão que é sempre aborrecida. Terminou-se com um momento de oração colectiva.

Chegou a hora do sorteio, que decorreu de acordo com a inscrição previamente feita. Calhou-me em sorte o número 6 da armada A. Era uma porta do cimo da montaria e ficava em frente das portas colocadas no centro da mancha. Com o envelope, além da tradicional fita para marcação dos animais abatidos, vinha também um prospecto de propaganda da herdade indicando os serviços que ofereciam e respectivos preços, bem como um mapa da mancha, idêntico ao publicitado, com um circulo no local que me tinha sido atribuído.

Tratamento mais uma vez de cinco estrelas. Como se costuma dizer.

Após o sorteio foi a habitual procura dos carros que fariam o transporte para a mancha, tarefa que foi fácil uma vez que estavam perfeitamente identificados. O percurso até á mancha fez-se rapidamente, pois era perto da casa de apoio, tendo a organização o cuidado de deixar os cães ainda no monte enquanto se distribuíam os monteiros nas portas para não haver barulho por perto.

A minha porta era quase das últimas e ficava mesmo praticamente no ponto mais alto da mancha.

Eram sensivelmente 11:00 quando fui largado no posto e o tal nevoeiro que de manhã nos atormentava, já se tinha dissipado por completo.

Como o meu posto não ficava à beira da estrada o postor indicou-me a direcção a tomar até ver efectivamente a fita que assinalava o local do posto. O caminho era ligeiramente a subir entre paus partidos e cortados que tinham ficado no chão resultado de um antigo caminho que teria sido feito após um fogo que anteriormente (há 4 ou 5 anos atrás) teria assolado a região.

A vista era magnífica, a mancha a descer, com um caminho mesmo à minha frente que rasgava o mato por sensivelmente 50, 60 metros, o¬nde eventualmente poderia disparar e com uma largura de sensivelmente 10 metros. Na minha direita poderia fazer tiros largos, que poderiam chegar até aos 250 metros uma vez que o campo de visão se estendia para cima para umas limpas antes de uns pinhais cerrados que terminavam no cume dos montes próximos, também para a chapada da frente que tendo alguma vegetação, dava algumas abertas, e portanto algumas possibilidades de tiro a uns 150 metros sensivelmente.

Do meu lado direito era o caminho sujo de o¬nde eu tinha vindo, mas que poderia proporcionar, se tivesse a sorte que às vezes me acompanha, de aparecer um javali “à cagadinha” como se costuma dizer pelo caminho fora. À minha frente também todo o vale que vai até Penamacor de um lado e terras de Espanha por outro.

Só por esta vista magnífica já estava a ganhar o dia.

Mais próximo a casa da Herdade do Campo Frio, de o¬nde tínhamos saído, e o¬nde podia avistar claramente o vermelho da minha carrinha estacionada. Mais perto ainda via alguns postos da armada B, bem como as carrinhas dos Matilheiros e os cães que já começavam a ser soltos.

Escolhi o meu posto de montaria o¬nde coloquei o banquinho, retirei a arma da funda, municiei-a, retirei do saco a faca de remate que coloquei no cinto, bem como a carteira o¬nde estão as balas, e preparei-me para a acção. Retirei ainda o blusão pois o sol já começava a estar forte e apesar do vento ligeiro, que se fazia sentir estava um dia muito agradável e a convidar a tirar o casaco.

Estava eu a iniciar esta tarefa quando começo a ouvir na tal chapada da frente aquele som característico de animal a pisar troncos e folhas. Entres as clareiras surgem 2 javalis, que já se deslocavam subindo a mancha, e indo um atrás do outro.

Apontei arma, ainda cheguei a ter um, por segundos, no visor, mas tal como antes tinha descrito, o terreno era sujo e não dava a possibilidade de apontar o tiro com segurança. Dei dois passos para a esquerda para procurar uma melhor posição caso os animais subissem ainda mais, ficando numa limpa que havia a uns 150 metros de mim, mas tal não aconteceu e o bosque, ficou de novo em silêncio, mas por pouco tempo, pois a meus pés e do lado esquerdo começo a ouvir um novo barulho de partir lenha.

Esse barulho cada vez se aproximou mais, e mais e depois deixei de o ouvir pois só ouvia o meu coração que acho que batia mais alto que o barulho que os animais faziam, se não era assim pelo menos para mim parecia.

Segundos depois vejo aparecer, no tal caminho aberto, a cabeça de um javali que olhando para o meu lado se fez ao caminho com determinação. Recordo que o espaço visível era de uns 10 metros, e o que é certo é que os animais, entretanto este trazia companhia de mais dois, que não estavam visíveis, pareciam o Ben Jonhson a correr os 100 metros (fui buscar o Bem Jonhson porque estes com a velocidade que tomaram também deveriam estar dopados). Ainda lhe larguei um tiro, mas eles rasparam-se, e continuei a ouvir partir mato até chegarem ao caminho.

No final da montaria ainda fui ver se tinham deixado alguma marca de sangue, mas não havia nada, nem mesmo depois no caminho do carro, também não havia rasto nenhum.

Retomei a minha posição retomando também a calma que o momento exigia.
À minha frente as matilhas já evoluíam no terreno, ouvindo-as eu muito bem e vendo também o trabalhar das mesmas uma vez que estava numa situação privilegiada relativamente à mancha.

Umas ladras, um agarre ao longe ouvindo-se nitidamente os grunhidos do porco a debater-se com os cães, e depois o silêncio novamente, adivinhando-se o remate que tinha acontecido.

E neste interpretar de sons começo a ouvir de novo, um restolhar muito perto de mim, mas um restolhar muito alto e com a nítida sensação de que as árvores estavam a ser afastadas para a passagem do animal, não era só o estalar de lenhas, era também o barulho das folhagens. Um Veado surge altivo do meu lado direito, e atravessa a trote o caminho que antes tinha sido percorrido pelos Javalis. Já era um veado interessante, cornadura alta e escura, com as pontas mais claras, mas ainda, quanto a mim, a não valer os ditos 500€ e como é evidente não lhe atirei.

Para poder ver melhor o animal e tirar-lhe uma fotografia (a máquina acompanha-me sempre nestas andanças), resolvi subir de novo um bocadinho, para o tentar ver mais longe na chapada do lado esquerdo, o que não consegui, esgueirando-se o animal, pela cova que existia entre o meu posto e a tal chapada. No entretanto, quando olho de novo para o caminho o¬nde tudo se tinha passado, lá vai mais um javali a descer que nem tempo me deu para pôr a arma à cara, uma vez que o fez a descer e também na direcção que o Veado tinha levado. Parecia um fantasma a desaparecer…

Ainda tentei ver se se mostrava do outro lado dos arbustos, mas nunca mais o vi, nem senti.
Mais uns silêncios, mais uns agarres (no total contei uns quatro) com uns dois a dar sonoridade de porcos a guinchar!

No entretanto, e com este movimento todo, comecei a ter fome e logo por sinal não tinha levado nada para comer, nem uma bolachinha; foi então que me virei para a natureza, os arbustos que estavam à minha volta, eram medronheiros com os respectivos medronhos já bem madurinhos…

Foi um ver se te avias, fui-me a eles com toda a propriedade e sem medos dos mitos que já tinha ouvido relativamente a bebedeiras que pessoal tinha apanhado quando era novo, comendo estes frutos. Comi bastantes, e não notei absolutamente nada de anormal e ainda por cima eu que tenho pouca tolerância ao álcool, qualquer copito me põe logo a cantar o fado…

Com o estômago já mais aconchegado voltei a estar duplamente atento ao desenrolar da montaria.

Mais uma vez e vindo de baixo começo a ouvir um forte restolhar a vir na minha direcção. Numa primeira fase pensei tratar-se dos matilheiros que estavam a subir o monte, com os cães, mas rapidamente percebi que não era isso pois as cabeças de dois veados começaram a surgir por cima do mato. O maior à frente, o mais pequeno, sem ser vareto, logo atrás com um passo decidido a vir na minha direcção. Acompanhei o movimento deles durante uns bons 30 metros, quando me decidi, e já que não lhes podi€€€€a atirar, ao menos tirava-lhes uma fotografia. Foi nesse momento que eles me viram, precisamente no momento em que levo a mão ao bolso esquerdo para tirar a máquina . Eles param por segundos, para me olhar e inflectem para a direita inviabilizando a fotografia, lindo, lindo, lindo!!!

Sentei-me então finalmente para descansar destas emoções no banquinho que desde o início eu tinha colocado para me sentar e ainda não tinha tido tempo. Estávamos já no final da montaria e seriam sensivelmente umas duas da tarde.

Neste entretanto as matilhas chegaram ao local o¬nde os dois primeiros javalis da manhã se tinham refugiado, e foi certinho e direitinho, primeiro começámos a ouvir um agarre, com chiadeira e tudo, depois vimos o outro porco fugir para as portas contrárias às nossas. Ainda levei a arma à cara mas entretanto o animal passou-se. Esta cena decorria toda a uns 180, 200 metros do meu posto.

Finalmente comecei a ver os cães e matilheiros a chegar aos seus carros e de novo a calma a instalar-se por estas bandas. Teria sido uma boa montaria com certeza uma vez que tinha assistido a uma série de agarres e os tiros que sem serem exageradamente muitos, teriam sido os suficientes para garantir uma boa performance.

O recolher dos monteiros dos seus postos foi rápida, e não havendo grandes resultados na nossa armada, caberia ao Monteiro do posto 3A fazer as honras à casa e abater um belíssimo navalheiro, num tiro sensivelmente a mais de 200 metros, fantástico.

Chegámos ao pavilhão o¬nde começou desde logo a ser servido o almoço (lanche) também recheado de coisas boas.

Uma belíssima sopa regional, um ensopado de cabrito e doces alguns deles conventuais que não vou aqui referir os nomes porque só de os dizer já engorda, mas que estavam uma delícia estavam.

Entretanto, enquanto terminávamos o almoço chegaram as rezes que foram sendo colocadas de uma forma digna e correcta, dando o merecido destaque ao navalheiro, ficando de pé com a cabeça levantada para mostrar o troféu.

Depois foram as fotografias da praxe, com a equipa completa a posar para a posteridade em ambiente simpático e de grande confraternização, como no fundo deveriam ser todos estes actos venatórios.

Resumindo e concluindo, grande montaria, não só pelo resultado: 18 javalis, como também pelo ambiente que se estabeleceu entre todos e que a organização soube potenciar. O facto de durante o acto venatório se avistarem muitas rezes e de se estar sempre a ouvir ladras e agarres, fazem desta montaria uma excelente montaria, independentemente de eu não ter ou não abatido alguma rês.

Será um sítio a recomendar e seguramente voltar.
 

 
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