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Coronel Júlio de Araújo Ferreira
 

     

Autor: MIGUEL PEREIRA

15-06-2009 16:57:51

 

O jovem militar
   
Para Júlio de Araújo Ferreira todas as palavras e referências serão insuficientes. Mas o que é que se pode dizer de alguém que foi, com grande probabilidade, o maior caçador português de todos os tempos.

Conheci este grande senhor e caçador pouco antes de começar a caçar. Apanhei-o infelizmente na recta final da vida. As circunstâncias em que tal ocorreu foram ditadas por um rapazinho com 16 anos, cheio de vontade e entusiamo de se tornar caçador e que já tinha lido todos os seus livros e ouvido muitas histórias de façanhas suas na caça. O nosso Coronel tinha por essa altura uma fabulosa biblioteca de caça. Provavelmente uma das melhores colecções particulares do país. Para além de publicações nacionais, dela constavam algumas dezenas de livros franceses, ingleses e americanos (estes, essencialmente sobre tiro, munições e recarregamento de munições). Interrogo-me sobre qual terá sido o destino deste valioso acervo?

Um dos dias em que fui ter com ele para me emprestar mais alguns livros, cuja leitura eu devorava avidamente, fez-me uma grande surpresa. Pegou na primeira edição de “Caça” do Dr João Maria Bravo e ofereceu-mo. Este livro tinha-lhe sido também oferecido pelo próprio Dr. João Maria Bravo. Guardo-o religiosamente. Nele, há numerosas páginas que contêm observações e notas de rodapé manuscritas pelo Coronel, cuja leitura é um convite à boa disposição. Estas observações eram o “rascunho” para muitos dos artigos de resposta aos artigos do Dr João Maria Bravo que apareciam na Diana.

O Coronel Ferreira e o Dr. João Maria Bravo trocaram-se de razões sobre um grande tema clássico do nosso panorama cinegético: terreno livre versus coutos de caça. Nas revistas Diana dos anos 50 e 60, quem as tenha, pode encontrar o que aqui refiro. O tempo veio demonstrar que quem tinha razão era o Dr. João Maria Bravo. A disputa de razões e de princípios foi feita com a maior correcção e elevação. Eram de facto dois homens que conseguiam dar o exemplo em muita coisa e a muita gente. Vieram a caçar juntos por diversas ocasiões, creio que até em Vale de Manantio, na herdade do Dr. João Maria Bravo. Conheceram-se pelos antagonismos acabaram grandes amigos um do outro.

Das muitas narrativas que fez nos seus escritos falta lá uma cuja sua modéstia fez com que não a quisesse incluir. Aconteceu na véspera da sua partida para uma das comissões de serviço em África. Começando nos arredores de Tomar, até á zona da Quinta da Granja e nos cabeços do Prado (com o Nabão ali pelo meio) teve uma jornada em que abateu 42 perdizes. Naquela altura havia por lá muitas mas era já excepcional quem conseguisse chegar à barreira das 20. Só mesmo a sua tenacidade física, o bom atirador que era, saber e conhecimento do terreno o explicam. Se alguém voltar hoje aquela zona para conhecer aqueles cabeços e matagais também percebe melhor o significado do número 42 e fica com uma ténue idéia do que possa ter sido essa jornada. Depois foi para aquela África virgem da época e começou na caça grossa.

Mas o que torna o Coronel Júlio de Araújo Ferreira tão único? A primeira razão é a de que, não tendo sido um profissional, não poderia ter sido outra coisa senão um caçador. Nasceu na altura certa para se poder caçar em toda a sua plenitude e liberdade, uma altura em que o filão estava por descobrir e explorar. Poucos o souberam fazer como ele. Era tocante a simplicidade com que na primeira pessoa contava as coisas que conseguiu fazer, vulgares para ele, autênticas proezas para caçadores comuns.

Foi também um distinto militar de carreira, cujas deslocações e comissões conseguiram, na altura própria colocá-lo quase sempre nos locais e em vários continentes o­nde os grandes feitos cinegéticos tinham lugar. Sem fortuna pessoal, conseguiu assim correr mundo. A quase totalidade destas grandes jornadas é hoje, objectivamente, irrepetível. As condições e contextos em que ocorreram não voltam a ser possíveis no mundo de hoje, a chumbo ou à bala. Depois havia uma personalidade aguerrida e aventureira e uma esposa que sempre o acompanhou para todo o lado, numa altura em que as grandes viagens tinham o seu quê de desconforto e de grande fadiga.

Um grande e sempre atento observador dos mais infímos pormenores do quotidiano de qualquer animal no seu meio ambiente. Uma facilidade inigualável para de posse destes elementos os conseguir extrapolar para a caça, e, uma capacidade de execução do acto venatório tão refinada que depois o impeliam a fazer, e a proporcionar, coisas fantásticas, só ao alcance de alguns predestinados. E ele era realmente um predistinado para a caça.

A quantidade de caça que conseguia abater era assinalável. Bastava darem-lhe a oportunidade que ele fazia-o, não interessa se estamos a falar de perdizes vermelhas, búfalos ou elefantes. Além disso por todos os locais o­nde caçou, não o fazia durante uma ou duas semanas. Ficava sempre vários anos e como a caça estava quase à porta as jornadas e os lances repetiam-se vezes sem conta. O seu grande saber era feito de experiência. Ainda assim, raramente escreveu uma linha sobre os seus recordes pessoais (e se calhar nacionais) para as espécies cinegéticas mais conhecidas.

Nunca se vê numa fotografia a ostentar um troféu, sentado ou com um pé em cima da caça abatida. Isso não era dele, não fazia parte dos seus nobres valores.

Tivemos outros grandes caçadores em Portugal, nas ex-colónias também. Mas é difícil encontrar alguém que tivesse caçado em tantos lugares e cenários invariavelmente ainda virgens, geograficamente distantes, e com espécies tão diferentes e diversificadas. Creio, com toda honestidade, que só mesmo Júlio de Araujo Ferreira. Um caçador de três continentes. Senão vejamos, num exercício simples com menção a locais e tipo de espécies abatidas, a dimensão que tal pode atingir e a conclusão a que, obrigatoriamente, chegamos:

Portugal Continental (perdizes, lebres, coelhos, galinholas, codornizes, pombos, tordos, rolas, narcejas, patos, faisão, raposas,...)
Açores (coelhos, pombos, codornizes, galinholas,...)
Guiné Portuguesa (Elefantes, antílopes e gazelas variados, leopardos, búfalos, facóceros, gansos, patos, pombos, rolas, codornizes, perdizes, galinhas da Guiné,...)
Cabinda (Elefantes, leopardos, búfalos, porcos do mato,...)
Angola (Elefantes, rinonceronte, antílopes e gazelas variados, leopardos, búfalos caffer e “pacaças”, facóceros, palancas, gnus, elandes, cabras de leque, leopardos, chitas, gansos, patos, pombos, rolas, codornizes, perdizes, galinhas da guiné, abetardas,...)
Moçambique (Elefantes, rinonceronte, antílopes e gazelas variados, leopardos, búfalos caffer, facóceros, palancas, gnus, elandes, leopardos, chitas, gansos, patos, pombos, rolas, codornizes, perdizes, galinhas da guiné, abetardas,...)
China (perdizes, codornizes, narcejas, rolas, diversos patos)

Do antigo Império Colonial Português só faltou a Índia, e se acaso ele tivesse lá estado o tigre teria sido, sem dúvida, um dos seus troféus, para já não falar de elefantes, rinoncerontes, o leão indiano,...

Não conheci mais ninguém com este curriculum, nem ouvi falar. Sem prejuízo de eventualmente existir algum incógnito que se desse a conhecer a nível nacional através de algo como um livro ou artigo de jornal ou revista, não há, de resto, nota digna de registo.

Livros são outra das coisas realmente valiosas que Júlio de Araújo Ferreira nos legou. O reflexo maior do seu saudável espírito de partilha e generosidade. Escreveu quatro :

“Fauna da reserva de Cufada”, editado em 1948
“Bichos da Guiné”, editado em 1973
“Tiro de caça a chumbo”, editado em 1979
“A caça ... uma saudade”, editado em 1989

Em linguagem simples e acessível, romântica até. Um verdadeiro mestre caçador a escrever para outros caçadores... e não só. Reproduzo uma crítica da imprensa a “Bichos da Guiné”, o primeiro livro com que se deu a conhecer a nível nacional.

“... Não conheço o autor de parte nenhuma. Mas li, com entusiasmo crescente, estas páginas ricas de observação e de ensinamentos, sobre tema que vejo tomado pela primeira vez, no que respeita à Guiné. De um realismo de incontroversa autenticidade e beleza, cada aventura de caça constitui, simultaneamente, um manancial de informações, sem que o livro, a reportagem, se transformem num compêndio de zoologia africana ... E poderia correr esse risco, caso Júlio de Araújo Ferreira não tivesse, dentro da farda do Exército que servia, a sensibilidade e a alma de um verdadeiro repórter. Tão curioso isto é que este escritor – tão tardiamente revelado – tem algumas páginas dignas de uma antologia de caça.
Nenhuma retórica no seu estilo. Da simplicidade com que passou ao papel as suas emoções nasce a beleza apolínea do texto. Nele não encontramos o supérfulo, nem a dajectivação em que se afundam quase todos os aprendizes de escritores. E de repórteres. Com risca rápida nos seus apontamentos de caça, com perspicaz sentido de observação e com perfeita concatenação e movimentação de factos e ocorrências, as páginas de “Bichos da Guiné” são de uma vivacidade, de uma humanização da natureza, de um poder de comunicação que nem sempre acontecerá a experts da temática e do género.
Por isso, este livro vale a pena ser lido. São muitos milhares de horas no mato, olho na picada ou no ponto de mira, ouvido atento ao piar da ave, ao estrugido do mamífero, ao rastejar do réptil ou ao espadanar do sáurio. Assim passam diante dos nossos olhos todos os bichos desta terra do golfo da Guiné, muitos dos quais procurados, quase como alucinação, só por se ter ouvido dizer que tinham sido vistos, acolá e além, com dúvidas do caçador e dos peritos, que os supunham desaparecidos ou extintos, na região ou no périplo da nossa soberania. É nestes passos, tantas vezes perdidos, que o escritor, o repórter, afloram. E, alforando, se revela como escritor de méritos que não lhe regatearemos.”

Amândio César, in “Diário Popular”


Viveu 90 anos. Faleceu a 20 de Setembro de 1995. O mês e a altura do ano que tanto amava por ser aquele em que tradicionalmente mais uma época de caça se iniciava. È uma data que não esqueço com facilidade, quanto mais não seja porque não estava por Tomar nessa altura e só soube, pelo meu pai alguns dias após o enterro, do seu falecimento. Não tive, pois, a oportunidade de acompanhar a sua despedida terrena. O grande e sublime caçador tinha fechado, para sempre, aquele par de olhos vivos que tanta caça abateram ao longo da vida.

E ele, que agora se encontra pelos terrenos da eternas caçadas, certamente deverá ter reencontrado a sua estimada e querida avó que num dia lançou, em toda a sua autoridade, a seguinte observação ao neto Fernando (irmão mais novo de Júlio de Araújo Ferreira e um atirador de eleição) quando um dia tomou conhecimento que ele, no dia seguinte, pretendia fazer uma caçada: “Tu? Ires à caça? Ainda se fosse o teu irmão...!”

Neste tributo, ao grande mestre, deixo aquele que considero ser um dos melhores textos (No meu Concelho... como em tantos outros 70 anos de caça) que retratam o que foi a caça em Portugal no último século. (Ler texto)
 

 
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Comentário(s) (6)   Comentário(s) (6)    
    Coronel Araújo Ferreira    
    Excelente homenagem    
    Parabéns!    
    Bravo, Miguel!    
    um pé em cima da caça abatida    
    Partilho da tua admiração...    
   
     
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