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Leishmaniose, uma das mais terríveis doenças
 

     

Autor: Carla Azevedo

13-12-2004 10:00:00

 

   
De declaração obrigatória (apesar de esta exigência legal ser muitas vezes descurada, a leishmaniose é uma das mais terríveis doenças parasitárias que afectam o cão, constituindo uma grave zoonose, em que o cão funciona como principal reservatório do parasita para o Homem, e também para outros cães.

Esta patologia, actualmente, é um importante tema de investigação pelo elevado número de animais afectados nas zonas endémicas, pelo aumento da prevalência e pelo seu comportamento oportunista no homem, afectando preferencialmente indivíduos imunodeprimidos.

O agente etiológico desta patologia é um protozoário, parasita intracelular obrigatório de macrófagos pertencente ao género Leishmania. No nosso país, a espécie responsável é a Leishmania infantum. Este parasita provoca a forma visceral da leishmaniose, também denominada de Kala-Azar.

A leishmaniose apresenta uma distribuição geográfica vasta, sendo mais frequente em climas quentes. Em Portugal e em muitos países mediterrânicos, é endémica. Um dos focos geográficos de maior prevalência encontra-se na região de Trás-os-Montes e Alto Douro (Distritos de Vila Real e Bragança, e parte dos distritos de Viseu e Guarda) o­nde de acordo com a Direcção Geral de Saúde, entre 1986 e 1999 ocorreram aproximadamente 50% dos cerca de 300 casos humanos notificados. A Área Metropolitana de Lisboa e Vale do Tejo e os concelhos de Évora e Algarve encontram-se também entre as áreas mais afectadas.

O cão é o principal reservatório deste protozoário, embora outras espécies animais possam servir de hospedeiro (raposa, rato, etc).

Esta doença é transmitida exclusivamente pela picada de um pequeno mosquito pertencente ao género Phlebotomus, também conhecido por “mosca da areia”, que ao alimentar-se do sangue do hospedeiro o infecta com o protozoário. Apenas a fêmea do mosquito transmite a doença, sendo mais activa no crepúsculo, ao fim da tarde. É importante que o caçador compreenda que a leishmaniose não se transmite pelo contacto directo com o animal doente, sua mordedura ou secreções.

 

O parasita uma vez inoculado pela picada do mosquito dissemina-se pela corrente sanguínea atingindo e afectando diversos órgãos nomeadamente baço, fígado, rins, medula óssea, linfonodos e pele.

A sintomatologia clínica desta patologia é ampla e muito variada dependendo do grau de infestação pelo parasita, estado imunitário do animal, tempo de evolução e órgãos envolvidos. O período de incubação da doença é bastante variável, podendo ir dos três meses a vários anos. São queixas frequentes dos donos as lesões cutâneas, perda de peso progressiva, anorexia e intolerância ao exercício. Outros sinais clínicos frequentes incluem depressão (triste), lesões oculares, epistaxis (hemorragia nasal), aumento dos gânglios linfáticos, claudicação (coxeira), o­nicogripose (crescimento exagerado das unhas), diarreia e vómitos. Nem todos os casos apresentam este conjunto de sintomas o que dificulta o diagnóstico. As lesões cutâneas são frequentes, não pruriticas, não dolorosas e incluem alopécia e seborreia seca a nível das orelhas, zona periocular, extremidades e dorso; dermatites ulcerativas no prepúcio, boca e pontos de pressão e nódulos na pele ou mucosas.

O estabelecimento de um diagnóstico começa por uma anamnese completa: é essencial conhecer o local o­nde o animal vive, e se trata de uma zona endémica.

O diagnóstico definitivo é feito por observação directa do parasita, mediante citologia aspirativa da medula óssea e gânglios linfáticos ou biopsia cutânea. As técnicas serológicas são de grande ajuda no diagnóstico desta patologia, no entanto um resultado negativo não exclui a existência de leishmaniose. A aplicação de técnicas de biologia molecular baseadas na demonstração de DNA da Leishmania na medula óssea e outros tecidos é de facto o método mais especifico e sensível, sendo de prever que, pela sua crescente disponibilidade, venha a ser o método mais adequado para o diagnóstico desta patologia.

As análises de sangue e urina são de considerável importância no diagnóstico. A proteinuria, a hiperproteinemia, anemia e urémia constituem dados de grande valor orientativo.

O tratamento da leishmaniose não tem sofrido grande evolução nos últimos anos. Os sais derivados do antimónio, antimoniato de n-metil glucamina, constituem a base da terapêutica actual, aos quais é associado o alopurinol pelo seu efeito sinérgico. Dietas específicas para doentes renais são de elevada importância quando existe comprometimento renal. A supressão do tratamento tem por base a normalização do proteinograma. Um controlo pós terapêutico eficaz e regular, simultaneamente clínico e laboratorial, melhora substancialmente o tempo de sobrevivência. Durante a terapia há uma melhoria significativa dos sinais clínicos podendo haver mesmo cura clínica, mas o agente está lá, sendo as recidivas frequentes.

A leishmaniose é uma doença extremamente grave, de carácter crónico, em que o tratamento é longo e o animal está sujeito a recaídas e/ou reinfecções, sendo para além disso uma zoonose em que o cão é o principal reservatório do parasita. Sendo assim, as campanhas de controlo da leishmaniose visceral canina têm como objectivo principal, para além de proteger o animal, limitar a infecção humana. É, portanto, de ponderar a eutanásia humanitária quando o animal não tenha proprietário, este não se mostre disposto a levar a cabo o tratamento, o animal seja de idade avançada ou apresente insuficiência renal.

As medidas de prevenção passam pelas seguintes medidas:

*   combate ao insecto vector aplicando insecticidas nos locais eleitos de abrigo do mosquito,

*   uso de produtos repelentes no animal e dentro de casa, a manutenção do animal dentro de casa (nos meses quentes e em zonas endémicas) durante o intervalo em que se processa o anoitecer,

*   colaboração entre as diversas entidades competentes de forma a evitar a existência de animais errantes e sem abrigo,

*   eliminação das fontes de insalubridade periurbana.

Trabalhos de investigação têm vindo a ser desenvolvidos no sentido de colocar uma vacina eficaz disponível no mercado.

No fundo, cabe-lhe a si contribuir para que o seu cão se mantenha saudável, retribuindo-lhe dessa forma a sua fidelidade e dedicação.


O meu agradecimento à colega Ana Leite pela cedência de uma fotografia.

 

 
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